sexta-feira, 14 de março de 2014

Para Ela...



Ele ergueu as mãos, do Seu verbo fizeram-se as esferas e Estrelas salpicadas no Céu, Tua semente parábolas nas montanhas. Do barro rimadas auroras sobre o papel. Asas aos Cânticos, Ciência e Palavra. Eis que, a primeira Poesia que nasce, é a de Deus. São as palavras confessionário em que o poeta colore os cinzas dos dias e dá voz aos teus próprios silêncios. A Poesia é a ponte, travessia para alcançarmos caminhos, mesmo que nem eu saiba onde. Apenas me faço instrumento para anunciar e aplainar meus próprios trajetos. As sílabas, vogais para redenções das minhas luzes e trevas. E aos outros me são os seus encontros, feitos de úteros, partos, línguas, beijos e infâncias.
Versos que assopro para irem, onde tiverem de ir. Ainda que os horizontes estejam em lugares outros. Ainda que as janelas sejam apenas aquela diminuta marquise de nossos interiores mundos. Ainda que distância regressou-se do cais. Ainda que de promessas nos rompeu os amores. Ainda que de amores se fez o Eterno. Ainda assim a imensidão de nós nos é afinada a essa potência, chamada Poesia e habitada de nascimentos.
(Fernanda Fraga, 11 de fevereiro de 2014)

*Em homenagem ao dia 14 de março, dia nacional da Poesia.
Imagem: Efi Kokkinaki 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Vidral...

Olho-te entre as planícies, estes jardins a alimentarem os meus olhos. Florais que me são como vales, embebidos para percutir nos lábios dos rios  – dos teus amanheceres. Meteoros de um dia que não finda, que não perdura nas fendas, que não sacia minha boca. Suspensa, abocanho tua gravitação; a tombarem, a rangerem, a afagarem na sabedora pétala, onde o meu verbo em ti infinda um pouso – d e s á g u a.
Aninham-se alguns cílios de império botânico, lacrimejam-se nas pálpebras da intacta espera. Acaricio-os, enxugo-os para ver todas as Luas nascerem, rebentas no aqueduto de tuas lembranças que me são como tímidos trovadores de pintassilgos. E nos perdemos em que ternura, vestiu-se de hiatos. Assim soltei um manancial de visgos para reacenderem meu fôlego pelo Infinito.  E guardar esse relicário de bem-querer nas frestas de nós dois.
Emparelhados os vaga-lumes vagam nas facetas ósseas. Frouxidões de feixes escolióticos, entre teus dedos que jamais romperam a amplidão de nós. A um amanhã que trespassou meus ontens. E rasuraram eloquentes nas fáscias aderidas sob teus silêncios. Espaços de uma moldura a dissolver o que não coube para tuas promessas. Insones vaga-lumes voam nos vasos, nos vãos do lume. Em um vidral pendurado na memória a refletir o céu dos dois lados.

(Fernanda Fraga)

*Imagem site Google, sem especificação fidedigna da autoria.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Teus passos...

Deixa-me ouvir estes versos
Tecidos entre os regados dos pés de maracujá
A vazar-se nos candelabros
Nos feixes murmurantes, dos teus olhos de infinito.
Por sob a maresia que perdura o teu espaço,
E silencia em todo o vão,
E descarrilam-me arraigados
Para habitar-se no oceano e nas persianas do céu.
E inevitavelmente transitam
entre as conchas de tuas demoras
Tuas horas vislumbrando o tempo.
Uma saudade sem ter cais,
Um barco sem o teu porto.
Essa exatidão onde verso falta tua.
Essência que desafogou os medos
Fragrância a se deslizar na pele das minhas mãos
Enquanto cultivo rimas para os teus dias.
Ponte tecelã a desenhar,
a geografia dos teus passos.

(Fernanda Fraga)


Imagem: Beatriz Martin Vidal.   

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Transbordamento...

Claves de girassóis e samambaias timbram as cortinas.
Sabiás transbordam-me em suas flautas transversais,
O azul risca a quilha da água. Teu nome na moldura da nota,
Teu verbo perfumando as palavras
Dedilha na cítara os sons de tua boca,
Meu verso te sobre(voa).

(Fernanda Fraga)

Foto de Marcelo Cazani: Flickr

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Anunciação...

Assustei a pouco por sob o som rebuscado de tua anunciação
A milagrar fortemente entre os lençóis
Num campo flórido dos oboés
Que prenunciam os teus versos
Éfebos de avidez,
Amplidões em cenários, de araras e jacarandás.
Aragens em degradês flamejam,
Sereneiam os pés, os meus,
Nossos passo - a - passo
Descansais noutro Sol – comigo
Tuas mãos me atravessam o b l í q u a s
Em praia desabitada
Enquanto te espero, reescrevo,
Ali, sob os raios,
[de estrelas, sumidouros e bem-te-vis]
Os lábios se umedecem atravessados ao vento
De um ar leve,
Do vasto algodão,
Ruía macio, entre a pausa sonora.
Para além de tuas cordas vocais
Embebidas de tuas margens
Que também me anunciam.

(Fernanda Fraga)


*Imagem do Google, site específico não encontrado.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dobradura de tua voz e dos olhos...

Teus olhos se esbarram repetidas vezes a essa cor de outono amendoados, quando te sinto e ouço decorar-me todas essas melodias a emitir em tua boca. Despi nos teus contornos, raízes de um poema exposto, que me florescem, carregam meus descansos nas folhagens do chão. E quando pela tua Alma desejosa esculpe certos silêncios, tinge nas íris dos meus, clareados. E estreitas as desoras de mim. Suspensa quase evaporo, semi-solta àquela frase a deslizar na dobradura dos teus olhos, e na fina esperança que antecedes tu ao Mar. Sabendo eu que qualquer gesto abriga-me rente a ti, distende tantos vazios, amansa sentidos outros. Despertais assim dimensões ternas, acolho-me ante essa tua pausa espremida, a esmaecer as querências que carrego abafadas: e me revira, gira, voa todo meu ser.
Um caminho desancorado que desnuda - me suplanta. Como se tudo suavizasse resoluto esse encantamento. Brinda-me sem saberes do teu tom, povoa-me dos teus amanhãs, palco onde repouso da aridez do vento. E exponho-me versar toda cor que revela poesia apoiada em tua voz.  Que devoras e devolve-me o esmero sossego, que também rasura a rima.
Quero a versão contrária e durável dessas distâncias, e desprender-me para que seja o esteio para tuas presenças. Assim, movida por uma ternura tão habitada, tudo finda, desabrocha as linhas para fazer-te de jeito sublime disposto a esse propósito - se atentar a mim. Cultivo esse orvalho, na tua voz que se confessa a mim dos teus sagrados, que me abrigam, avivam-me no teu uni(verso). E que aos poucos pousa e voa e fica com aquela paz bonita, a desafogar; para te habitar e te caber todo.
(Fernanda Fraga, 7 de Dezembro de 2013)


"Te ver era como despir uma poesia. E se vestir da cor dos seus olhos." (Bárbara Carvalho)


*Imagem do Google site específico não encontrado.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Bem-aventurança...

Com um iluminado traço recortou infinitas manhãs
Venturosa atravessava teus rios,
Agrestes equidistantes,
duas margens aplainadas por entre os jardins
Florais vestidos para perfumar outras mãos – senão as tuas.
Pétalas, aves e arrebóis
Cingiam-se o Céu e a Terra
Como lençóis a beijar o dorso, vielas da face;
Feixes dos cílios, o corpo a deitar defronte a flor.
Antes quando sombria desafinava os Cânticos
Cansava-se os pés, doía-a-se.
Lembrou-se outrora que teus gestos cristianizavam
até as pedras secas
Ainda que aridez fosse feito os teus trajetos
Enfeitavas mesmo assim...
No horizonte de tuas dimensões, ainda que temporárias
Nasceria em outros campos e o Sol desenrugava
a penumbra de tuas tristezas,
A se dilatar nas bordas
Do quase-aqui, exposto, solto;
Pra te fazer caminho novo
Enquanto teu lume percorre o parapeito dos ventos
São teus versos a acolher
Desenhando no lábio
A bem-aventurança
Para abrigar-me rente, em tuas aquarelas.
A ser a presença
Senão tua saudade
Teu nome,
Pra decorar minha boca.

(Fernanda Fraga, 07 de novembro de 2013)

*Site da imagem não encontrada no Google.