Percorro a demora deslizante da ponta do lápis a reticenciar sua alma no papel da minha pele. Nesse exato momento o grafite turvo-cinza encontra seu colo regendo-me numa oração serena. Cristalizo o verbo conjugado experimentado por nossos lábios; e alguns rabiscos por não passar e a ficar à espera de qualquer instante. Por viver, e eu vivo uma cronologia dos segundos, onde nossa duração agora, já é eternidade.
Ocupo-me de idas e retornos; agendas, roteiros e compromissos; de tempos a abrir e fechar os cílios olhando o céu que se resplandece quando o Sol beija o íntimo e liberta. O mesmo solo, o único; que me tem alinhada por meio dos seus sorrisos a sustentar os brotos, que de ti me Floresce. Envolvo-me a escrever mais e mais o que a Poesia me propõe: purificar qualquer coisa; qualquer pano de fundo que me seja encontro, troca.
Deito-me, levanto e já descalculo os ponteiros do relógio do quarto. Abro e fecho as janelas e não te encontro. Inquietou-me e evaporou na minha pele doçuras. O agora firma meus desejos e sonhos representados dias e noites. E acordei vendo você amanhecer em mim.
Ouvia-se o barulho reluzente lá do lado de fora. A chuva caindo naquela noite, espetáculo e platéia. Embasavam no vidro as saudades, as sequidões, clarões no céu. Amando-se um ao outro. Anunciavam que o Amor é imensidão de duas almas em uma só. Impulsionava, insuflava em seus pulmões o ar precocemente aprisionado nas esquinas e ruas de outras paixões. Os fazendo revestir noutro dia manhãs de céu azul. Mas a noite inaugurava trovões no peito, os fazendo explodir mutualmente no mesmo compasso. Por querer sair do casulo das lonjuras e tecer águas-oceanos de você-em-mim. Ele simplifica e juntos somam. Imundam-se, anseiam-se um ao outro, deseja-se o outro ser-em-nós a plenitude de gozo e glória.
São esses instantes despretenciosos que te vejo chegar, num passo rápido initerrupto. Deixando o rastro de querer você. Bem perto, bem livre... Diluindo-o todo em mim. Sua inegável passagem em fazer renascer os meus dias com as cores dos girassóis. Rabisco com lápis de giz-de- cera a rapidez que chega e suas demoras de quando se vai. O seu colo é meu encontro, as letras, as palavras soltas, enquanto você não vem.
Sou beijada nesses instantes por seus lábios, nas pétalas dos seus sóis. Procuro não pautar o que esse passo veloz, demorado poderá um dia vir a ser. Mas digo que as letras dos nossos nomes juntos são plurais, múltiplos: por você ser o verso, e eu a poesia. São esses instantes de presença-ausência que descortina a rapidez do encontro, sem desinsuflar a vida e nem ofuscar despercebido o brilho do sol.
Adormeço quieta, com os olhos entreabertos, fixos a margem das nuvens de algodão. Sopram cataventos na persiana do quarto. Espirais coloridos refletem sua face, o queixo quadrado, o sorriso gracioso a desaguar em mim. Mas não sei... não vejo seus nuances como outrora, está desfogado, afrouxou esse espaço visual entre a minha retina e a sua íris. Parece está em contramão o seu agora, seu despertar perpassando as cortinas das minhas manhãs com sua luz. Enrolada por entre os lençóis da minha cama e os arrepios da pele. Me desperto desatenta: Onde está meu Céu estreladinho? Cadê ele?
Creio numa distância demarcada geograficamente. Mas elas declamam e se unem por fusos horizontonais: alma e corpo. Desbravar o Sagrado e entender que o amava, mas amava o que ainda ama sem o ter. Talvez uma forma redentora de distrair a Alma, usamos alguns meios de prosseguir o rumo, remar frente as tempestades que os “outros”, aqueles “outros” nos fizeram ilhar por entre os vendavais e naufrágios de suas próprias desistências. Uma pesada desconfiguração lapidadas por cristais de vidros transparentes, que (eu) ousei tocá-los com as gotas da poesia. E me assentava lá naquele banco, onde já avistava seu pôr do sol. Partir nessa lonjura de se chegar a esse arquipélago, remando o barco onde se permite que o hoje sopre as brisas de Você. Âncoras lançadas ao mar, de renovações e encontros. É exaustivo e o cansaço em ser velejante de arquipélagos de chegar as possibilidades do que realmente me reintera, são as desistências. Aquele que decidiu navegar comigo até a linha de chegada como quem canta as glórias e os seus fracassos, pode tentar enxergar a prevalência do que pode vir a ser: o algodão doce, minhas poesias, por sobre os pincéis de suas palavras. E eu percebo ainda que os que desistem de nós são fraquejados pelas circunstâncias, não conseguem segurar a "barra". Os vemos escorrer, escapar o que no tempo, não permanece. Assim versando o infinito das minhas palavras e suas entrelinhas, reconheço as regras de se chegar juntos a esse encontro. Passo a dar lugar não ao que deve ser útil, nem ao que prende, mas que no Amor me transforma. Percebo ainda das inúmeras vezes que naveguei pensando que o outro também estivesse fundamentando nisso e pareceu decidir ser âncora, aliança, ser poesia, ser Amor. Fui golpeada pelos escorregões das gotas das chuvas que instabilizaram meus pés, meus braços e deixaram meu navio inseguro. Então, é quando eu percebo que o outro já desistiu de mim há muito tempo e eu já percorria sozinha. Remou o barco um certo tempo e depois deixou-me à deriva. É o que mais dói encontrar-se solta, descobrir ao virar o rosto e ver seu navio já vazio. Machucada com alguns hematomas e arranhões, mas inteira.
O choro dos amores não correspondidos.” (Lídia Martins)
Uma lança perfurada, nas almas dos aflitos.
Parte enfurecida, desprevenida, nos corpos benditos.
Alegorias encontradas,
Solfejo permitido, ardente,
Mas partido. (Fernanda Fraga)
PS.: Esse poema foi inspirado em um Tweet da poetisa Lídia Martins, ela fez a citação do trecho acima inserindo o vídeo do You Tube da obra de Tschaikovsky Valse Sentimental, mas tocada pelo violoncelo Georg, daí me veio esses versos aí abaixo. Pra visualizar o blog da Lídia Martins é só passar o mouse sobre o nome dela lá em cima.